Jéssica Moreira

Jéssica Moreira

Jornalismo
Tempo de leitura: 4 minutos

Quem vê Renata Dorea de longe, com sorrisos largos, sempre solícita, amigável, e receptiva, não imagina que um dia a artista de 23 anos já foi tímida. Na infância Dorea queria ser cantora, ou atriz, mas com pouco incentivo familiar, e uma timidez latente, o sonho ficou de lado. Mas a veia artística da Carioca, com alma de aldeense, não ficaria escondida por muito tempo. Ao se mudar pra região dos Lagos, durante a pré-adolescência, começou a frequentar algumas aulas de arte na casa Sciliar, em Cabo Frio. No Instituto Federal Fluminense (IFF), escola técnica em que Renata fez o ensino médio, tinha ateliê de arte, e professores capacitados que deram o suporte necessário para que ela entendesse sua verdadeira vocação para as pinturas. Entretanto, foi nas ruas que a jovem descobriu sua paixão pelas artes.

A sua recente trajetória como artista se iniciou com 18 anos de idade, quando deixou o conforto da casa dos pais, e foi estudar na universidade Federal de Juiz de Fora. Mas a sua nova realidade era desafiadora demais. Tendo avôs imigrantes nordestinos, e sem referência familiar nas artes, a insegurança tomou conta dos pensamentos de Renata, e essa situação fez com que ela trancasse a faculdade no quinto período.

‘’Na minha família não tem artistas, por mais que minha juventude tenha sido imersa no teatro, e nas músicas autorais da Região dos Lagos, eu tinha muita insegurança em relação a minha capacidade, ainda mais sendo uma mulher e negra.”

Em 2015 Dorea participou da uma exposição apenas de artistas negros, com uma pintura sobre uma lenda indígena, na escola de Belas Artes. Foi um “baque” para Renata se enxergar como uma pessoa negra e ver que tinha outras pessoas abordando e vivendo a mesma temática que ela. Neste mesmo ano, a artista começou a procurar pigmentos próximos ao seu tom de pele, e a pesquisar mais sobre arte urbana e folclore brasileiro. A partir desse momento nasceu o Projeto Sereias da Mata. O projeto era apenas um laboratório, para que a artista pudesse testar tintas e pinceis. Em 3 meses na rua, Dorea afirma que aprendeu mais do que os três anos que esteve na faculdade.

Sereia pintada em São Pedro da Aldeia

“Aprendi a ter afeto pela cidade e seus habitantes. A rua é cheia de segredos, cada pixo, lambe ou grafite tem uma história, e várias lendas.”

O nome do Projeto foi inspirado na Zona da Mata Mineira, onde Renata vive atualmente. Geralmente as Sereias são pintadas em muros ou paredes em branco, e tem identidade própria. Os traços são marcantes, e as características são únicas. As sereias, pintadas pela jovem não tem um dos braços e um dos seios, e a ausência desses membros. Segundo a artista, vem do vazio que existe na busca da própria identidade. Renata se define como Afro-indígena, mas confessa que não tem nenhuma noção dos seus povos ancestrais. Assim como as suas Sereias, ela afirma que perdeu uma parte da sua história, que em seus desenhos são representados pela ausência de membros, mas continua por existi.

“Esse despedaçar fala sobre esse buraco na nossa cultura, em nossa memória. Tiram essa parte, mas não pode esquecer tudo. As sereias estão sem braço e seios, mas estão firmes, saindo do mar para ocupar o asfalto.”

Foto arquivo pessoal

As pinturas ajudaram a artista a se curar mentalmente e psicologicamente de um relacionamento abusivo que viveu pouco antes de iniciar o projeto. Cada muro era uma aventura nova, e foi importante no amadurecimento pessoal.

“Quero ser um bom exemplo para as meninas, independente dos sonhos. Se eu subo em muros e transformo a cidade, você pode mudar o mundo da sua forma.”

Até agora, Renata tem 68 Sereias, espalhadas por Minas Gerais, Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro, e claro, na Região dos Lagos, onde sua aventura como pintora se iniciou. O objetivo é completar 100 pinturas até Janeiro de 2019. Após isso, ela pretende cuidar do seu pulso que está debilitado. A pintora fez mistério, e não quis revelar quais são seus próximos projetos.

“É segredo” Brinca.

Hoje em dia Renata voltou a estudar Arte e Design na Universidade Federal de Juiz de Fora (IAD-UFJF), O foco, ao contrário do que se imagina, é o cinema. Além do projeto, a estudante é co-fundadora do coletivo Descolonia, que tem como objetivo “encarar o asfalto, se ralar, curar as feridas, perder um pedaço, mas voltar mais forte”, de acordo com as palavras da pintora. A artista também faz pinturas manuais e digitais por encomenda, com o foco na cultura afro-indígena latina-americana e descolonizada.

“São os temas que eu me relaciono atualmente. É como se eu tivesse vidas paralelas em outras áreas, na verdade é uma forma de conhecer e desbravar esse mundo das artes e também entrar no mercado”

Para Renata alcançar a autoconfiança, algumas pessoas foram importantíssimas, e ela faz questão de lembrar e agradecer essas pessoas que incentivaram, acompanharam, ajudaram, e mandaram boas energias.

“Os meninos do 3d Crew, principalmente o Vinimax, que mora em São Pedro, e que me ensinaram. muita coisa sobre grafite e arte urbana. Obrigada a todas. Não desistam dos sonhos, não deixem de navegar.”

Foto arquivo pessoal: Vinimax

Nas redes sociais, facebook e instagram (@Renatadore), é possível acompanhar o lindo trabalho da artista, que ganha o coração de moradores por onde passa.

“A rua tem disso de ser uma voz coletiva que está na cabeça das pessoas, tenho usado trechos de música também, focando em artistas negros que também falam sobre a diáspora africana.”

 

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