Jéssica Moreira

Jéssica Moreira

Jornalismo
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Pronto Socorro Municipal Maria Izabel dos Santos Silva, no Morro dos Milagres, São Pedro da Aldeia, início de Fevereiro de 2019, 07h00 da manhã. Edla Caminha, de 53 anos, deu entrada com muita febre, vômitos e dores de cabeça. A pedagoga sofre de diabetes, e estava com uma ferida na dedo do pé, que foi amputado alguns anos atrás. De acordo com a filha de Edla, Lays Caminha, a mãe só foi atendida às 9h00 da manhã. A médica plantonista solicitou exames de sangue e urinas, entretanto, segundo Edla, não olhou o ferimento da perna. A paciente precisou aguardar cerca de três horas para receber os resultados.

Cenas como essa são corriqueiras no interior Pronto-Socorro, que é o único do Município Aldeense que atende emergência e urgência, ou que ao menos deveria atender a esses requisitos. Por lá é comum encontrar a recepção lotada. O ar-condicionado da sala de espera já não funciona mais, com isso é normal pacientes aguardarem do lado de fora pelo atendimento, que demora em média três horas para acontecer. Uma senhora que preferiu não ser identificada alega que só recebeu atendimento mais rápido porque conhece funcionários do hospital.

Foto/Divulgação: O Canhão – Pronto-Socorro do morro dos Milagres

Na sala de medicação só tinham dois enfermeiros para atendimento de mais de 20 pacientes. Do lado de fora, era possível enxergar uma grande fila de espera para receber atendimento. Edla, que esteve no local para coletar sangue para o exame ficou perplexa com a situação. A Auxiliar Administrativa do pronto-socorro, Thaiane Valente, afirmou à equipe de O Canhão, que no local de medicação sempre ficam mais de dois enfermeiros, para ela, os profissionais podem ter saído para buscar exames ou medicação em outro ambiente, no entanto, vários pacientes relataram a falta de profissionais de enfermagem em diversos horários diferentes.

De acordo com a assessoria de Comunicação da Prefeitura de São Pedro da Aldeia, a Secretária de Saúde respeita os protocolos ministeriais de acolhimento e classificação de risco, tendo como base a classificação de risco do Ministério da Saúde:

  •         Paciente vermelho: atendimento imediato
  •         Paciente amarelo: em até 30 minutos
  •         Paciente verde: em até 2h
  •         Paciente azul: em até 4h

A Política Nacional de Humanização (PNH) do Ministério da Saúde do Brasil (MS), criada em 2003, afirma que a classificação de risco é um processo dinâmico de identificação dos pacientes que necessitam de tratamento imediato, de acordo com o potencial de risco, agravos à saúde ou grau de sofrimento, corresponde a priorização do atendimento em serviços e situações de urgência/emergência. No dia da nossa visita ao Pronto-Socorro, Vinícius, de 18 anos, Morador de Praia Linda, deu entrada no hospital com febre, enjoo e vômito às nove horas da manhã, passou pela triagem, e recebeu pulseira verde pelo setor de classificação de risco. Seu estado de saúde agravou, e o jovem só foi atendido pelo médico de plantão às 12h46, após uma mulher não identificada interceder por ele.

Foto/Divulgação: O Canhão – Pronto-Socorro do morro dos Milagres

O pedreiro Edimilson Santos, de 41 anos, passou pela triagem de imediato, e mesmo com muita dor abdominal, recebeu pulseira verde, tendo que aguardar o atendimento. De acordo com o Pedreiro, a medida que esperava por atendimento, a dor aumentava. Para ele houve um certo descaso por parte dos funcionários, que não o acudiram. Assim como o Jovem Vinícius, o Pedreiro precisou da ajuda de uma pessoa desconhecida, e o atendimento só aconteceu depois da intercessão da moça, que lhe ofereceu água, conforto, e em seguida solicitou que enfermeiros dessem urgência no atendimento. A dor já era tão grande, que Edimilson mal conseguia informar ao médico qual era o problema “Eu não conseguia mais falar. Senti uma certa irritabilidade por parte do médico, que me mandou para a sala de medicação.” Conta o Pedreiro. Só depois da medicação, foi que o médico plantonista solicitou exames, que apontou Infecção urinária. Edimilson acredita que passou pelo menos três horas e meia no Pronto-Socorro “Eu estava com muita dor, não consigo ter a precisão do tempo por causa disso.” Afirma.

A Secretaria de Saúde ressaltou ainda que os prazos permitido na classificação de risco são estipulados, e que portanto, em situações de emergência, o tempo verde e azul poderá ser superior ao determinado acima, tendo em vista que os demais casos podem ser mais graves.    

Nas redes Sociais, é comum encontrar reclamações sobre a demora no atendimento. Para o operador de Supermercado Eliasibe Araújo, o atendimento nem aconteceu. A demora foi tamanha, que ele foi embora sem a consulta médica. Eliasibe foi trabalhar nos primeiros dias de Janeiro, quando teve forte dores de cabeça e insolação. Uma colega de trabalho do operador também estava com forte enxaqueca e ambos foram liberados do expediente juntos para irem ao pronto-atendimento, que fica ao lado de onde trabalham, no Costa Azul. Após mais de três horas de espera, sua colega, que estava quase desmaiando, solicitou ao marido que a levasse a uma Clínica particular, na cidade de Cabo Frio. Eliasibe aguardou um pouco mais, porém desistiu e foi embora para se automedicar. De acordo com o paciente, os funcionários do Pronto-Socorro alegaram que o sistema estava fora do ar. “Não entendo como pode isso. Os médicos têm diploma. Só podem emitir laudo com sistema? Não estudaram?’’ Desabafa Eliasibe. Segundo o Operador de Supermercado, a sua colega recebeu da Clínica onde foi atendida três dias de atestado, tamanha a intensidade de suas dores.

Para a Secretaria de Saúde, não existe superlotação no local, o que poderia explicar a demora no atendimento. Para eles o que acontece é que os pacientes clínicos são tratados na unidade por falta de vaga de leito clínico até na esfera estadual, como sinaliza no Sistema Estadual de Regulação. Na nota, a Secretaria esclarece que atualmente a unidade dispõe de uma equipe médica formada por três, plantonistas clínicos 24h, um ortopedista 12h, um médico visitador e um médico clínico 12h. A equipe de enfermagem é composta por três enfermeiros plantonistas fixos e um  complementação, totalizando quatro enfermeiros por plantão. A equipe de técnicos é composta por oito técnicos de enfermagem. O que para eles seria o suficiente para atender a demanda do Pronto-socorro.

Dona Edla voltou ao consultório médico após aguardar cerca de 2h para receber os exames e os apresentou a médica, que apontou infecção de urina. Uma receita foi emitida pela plantonista, e a pedagoga voltou para casa, segundo ela, se sentindo ainda pior.

Dona Edla Caminha – Foto/Divulgação: Arquivo Pessoal

A pedagoga está internada atualmente em um hospital de outro Município. A infecção de Edla tem origem no pé, que não foi examinado pelo médico plantonista no Pronto-socorro de São Pedro, e se espalhou para o corpo e posteriormente para a bexiga. Agora a Professora ficará internada por no mínimo 20 dias nesse hospital para tratamento das infecções.

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