Prof. Serjão

Prof. Serjão

Professor, Pós-graduado em História e Cultura Afro-brasileira
Membro do Movimento Negro de São Pedro da Aldeia, Filiado do Movimento Negro Unificado (MNU), Presidente do Conselho Municipal de Igualdade Racial [...]
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A marca do povo brasileiro é essa pluralidade, povo culturalmente misturado, racialmente miscigenado, que faz dele um dos povos mais alegres do mundo, mais acolhedor, e sempre de bem com a vida. Uma só palavra ou teoria não seria capaz de esgotar todos os processos e experiências históricas que marcaram a formação do povo brasileiro. Marcados pelas contradições do conflito e da convivência, constituímos uma nação com traços singulares que ainda se mostram vivos no cotidiano dos vários tipos de “brasileiros” que reconhecemos nesse território de dimensões continentais.

A primeira marcante e devastadora mistura, aconteceu no momento em que as populações indígenas da região litorânea tiveram contato com os colonizadores do Velho Mundo (Europa). Os interesses de exploração e o distanciamento dos padrões morais europeus, os portugueses engravidaram (varias por estupros), índias que deram à luz nossa primeira geração de mestiços. Fora da dicotomia imposta entre os “selvagens” (índios) e os “civilizados” (europeus), os mestiços formam um primeiro momento do nosso variado leque de misturas.

Algum tempo depois, graças ao interesse primordial de montar indústria açucareira, um grande contingente de africanos foram expropriados de suas terras natais para viverem nas condições de escravizados. Chegando a um lugar distante de suas
referências culturais, familiares, religiosas e de sobrevivência tendo em vista que os mercadores separavam os parentes, os negros tiveram que reelaborar o seu ponto de vista de mundo, com as sobras daquilo que restava de sua terra natal.

O que não significa dizer que eles viviam uma mesma realidade na condição de escravos. Muitos deles, não suportando o trauma da diáspora, recorriam ao suicídio, à violência e aos quilombos (fuga), para se livrarem da exploração e elaborar uma
cultura à parte da ordem colonial. Outros poucos conseguiam meios de comprar a sua própria liberdade ou, mesmo sendo vistos como escravos conquistavam funções e redes de relacionamento que lhes concediam uma vida com maiores possibilidades.

Não vendo fronteira com a esfera de contato entre o português e o nativo, essa miscigenação se deu também a novas veredas com a exploração sexual dos senhores sobre as suas escravas. No abuso da carne de suas “mercadorias fêmeas”, mais uma parcela de inclassificáveis se constituía no ambiente colonial. Com o passar do tempo, os paradigmas complexos de reconhecimento dessa nova gente passou a limitar na cor da pele e na renda a distinção dos grupos sociais.

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